Transformação de lixo em energia elétrica já é realidade em SC


A cidade de Itajaí, no Litoral Norte catarinense, abriga a primeira usina brasileira de geração de energia elétrica a partir do biogás proveniente de um aterro sanitário de porte médio, onde são depositadas cerca de 300 toneladas de resíduos sólidos urbanos por dia. A iniciativa pioneira, implantada no bairro Canhanduba, é considerada um modelo a ser copiado em outros municípios.

O projeto alia o aperfeiçoamento do gerenciamento de resíduos sólidos urbanos, com foco na redução do impacto ambiental, e o aproveitamento do biogás, uma fonte de energia limpa e renovável, geralmente desprezada entre os recursos energéticos.

A empresa Itajaí Biogás e Energia iniciou suas operações em abril de 2014, com um sistema capaz de gerar até 1 megawatt-hora (MWh), usando o biogás resultante da decomposição da matéria orgânica. Essa produção é suficiente para abastecer uma população de aproximadamente 14 mil habitantes. “A usina está projetada para gerar 2 MW já em 2015/2016, o que deverá acontecer tão logo seja atingida uma quantidade mínima de 900 a 1 mil metros cúbicos por hora de biogás”, disse o gerente técnico da usina, Felipe Hohmann.

Biogás
O biogás é um dos produtos da decomposição da matéria orgânica em condições anaeróbicas (sem a presença de oxigênio), através da ação de determinadas espécies de bactérias. Trata-se de um combustível gasoso composto, principalmente, de metano, além de dióxido de carbono e traços de outros gases.

É uma fonte de energia que vem sendo explorada em todo o mundo como uma possível substituta para os combustíveis fósseis, com diversas aplicações. Origina-se do lixo, do esgoto, de fezes de animais, de poluentes descartáveis, resíduos geralmente desprezados ou submetidos à queima.

Como funciona o processo
A geração de energia ocorre pelo aproveitamento do metano captado nas áreas do aterro sanitário. “O biogás gerado na área encerrada, que funcionou entre 2006 e 2012, já é 100% captado. Da área que está em operação, uma parte ainda não é, porque se trata do lixo mais recente, que está em ciclo de produção de metano, processo que leva, em média, seis meses pra começar”, detalhou a engenheira sanitarista e ambiental Juliana Ramos, analista de operações do Aterro Sanitário da Canhanduba.

De acordo com o gerente técnico da usina, as tubulações instaladas no aterro captam o biogás produzido. Elas são conectadas aos poços de drenagem, interligados às estações de regulagem do percentual de metano e de outros gases.

A linha principal da tubulação é direcionada à usina, que conta com equipamentos importados da Espanha e Itália. Na usina, o gás passa por diversos processos que envolvem condições adequadas de pressão, temperatura e umidade. Inicialmente, é feita a separação dos condensados em filtros. Depois, o gás segue para um processo de troca de calor, uma espécie de “secagem”, que reduz a temperatura. Na sequência, um aspirador suga o gás dos poços enquanto pressuriza a linha do gerador.

O gás é usado, então, como combustível para o gerador. O alternador gera energia elétrica de 480 volts e o transformador eleva a 23 mil. A energia passa pela subestação da usina, onde um transformador reduz a tensão a 380 volts para consumo interno.

A usina é autossustentável e a energia elétrica excedente gerada pelo biogás produzido no Aterro Sanitário de Canhanduba é comercializada no mercado livre. “Como se trata de um projeto pequeno, que não tem condições de competir nos grandes leilões feitos pela Aneel [Agência Nacional de Energia Elétrica], participamos do mercado livre, que são contratos de curto prazo”, explicou o diretor presidente da Itajaí Biogás e Energia, Eduardo Covas Barrionuevo. “Entregamos a energia no ponto em que a concessionária determina – no caso, a Celesc – e qualquer empresa credenciada como consumidora pode comprar essa energia e participar do mercado livre”, complementou.

Benefícios
A implantação da usina impactou na redução da emissão de gases de efeito estufa para a atmosfera, por meio de um sistema moderno de captura e queima dos gases gerados pela decomposição da matéria orgânica depositada no aterro sanitário.

Consequentemente, é uma iniciativa que colabora para frear o aquecimento global. “Antes era feito um processo de  queima direta do biogás nos drenos, mas não era totalmente eficiente, parte dos gases ia para a atmosfera”, contou Juliana. “Nem se compara ao que ocorre hoje, com a captação de todo o biogás para a usina, que o transforma em energia limpa. Dessa forma, aproveitamos o metano, um biocombustível de alto poder calorífico, e evitamos a emissão de um poluente”, ressaltou a engenheira sanitarista e ambiental. Pesquisas apontam que o metano lançado na atmosfera é 21 vezes mais agressivo do que o dióxido de carbono, principal agente do aquecimento do planeta.

Na avaliação do diretor presidente da Itajaí Biogás e Energia, o projeto alia preservação ambiental e a oferta de uma fonte alternativa de energia à comunidade. “Além da redução  da emissão de gases de efeito estufa, um dos problemas ambientais mais sérios enfrentados pelo planeta, também gera energia sustentável, transformando um passivo ambiental numa solução para a população.”

Negócio promissor
O projeto foi desenvolvido pela empresa JMalucelli Ambiental e implantado em parceria com a Tertium Participações e a Ambiental Limpeza Urbana e Saneamento, esta última responsável pela gestão do Aterro Sanitário de Canhanduba, inaugurado em março de 2006.

A previsão é expandir a estrutura da usina nos próximos anos, com a implantação de novos geradores, para aumentar a capacidade de produção energética. “Vai depender da ampliação do aterro e da quantidade de biogás gerado pela degradação da matéria orgânica. Estimamos chegar a 3MW, no máximo 4MW num prazo de 20 anos”, revelou Barrionuevo.

A expectativa dos empresários é ter retorno do investimento inicial, cerca de R$ 7,5 milhões, entre sete e oito anos. O diretor presidente da Itajaí Biogás e Energia considera o empreendimento um grande desafio. “Quanto menor o projeto, maior a necessidade de se trabalhar em nível de excelência, pois qualquer erro de conta pode transformar um bom projeto em deficitário”, ressaltou. “Estamos em fase de negociação de um projeto em São Paulo com potencial de implantar 20 MW em um aterro que recebe 6 mil toneladas por dia, que vai custar entre R$ 60 e R$ 70 milhões. Em casos como este, existe muito mais margem para algum eventual equívoco ou imprevisto “, comentou.

A intenção é tornar a Itajaí Biogás e Energia um modelo que demonstre a viabilidade de projetos de geração de energia em aterros sanitários de pequeno ou médio porte. “Essa é a realidade da maioria dos municípios brasileiros. Itajaí nos mostrou que é possível e pretendemos fazer muitos outros projetos em outras cidades”, afirmou Barrionuevo, que considera o biogás um negócio promissor. “Até mesmo as capitais dos estados do Sul –  Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba – ainda não têm projetos de geração de energia.”

No entanto, a falta de regulamentação sobre o uso do biogás para a geração de energia elétrica é um dos fatores que tem dificultado o desenvolvimento do segmento no país, na análise do empresário. “O biogás é um ótimo negócio, mas ainda é muito pouco explorado no Brasil, precisa de regulamentação. As questões de normas e da política nacional estão sendo trabalhadas pela Associação Brasileira de Biogás e Biometano, para que ele possa efetivamente fazer parte da matriz energética brasileira.”

Estimativa do Ministério do Meio Ambiente aponta que o biogás acumulado apenas nos 56 maiores aterros do Brasil poderia gerar 311 MWh, o suficiente para abastecer de energia elétrica uma população equivalente à do município do Rio de Janeiro.

Fonte: Agência ALESC

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